Wednesday, December 13, 2006

Pano para mangas #1

A dificuldade dos dois extremos, o ténuo momento em que se deixa a ignorância do hetero-conhecimento, a rampa de lançamento do sucesso fácil e visível, os 7 minutos de fama, o momento em que coramos de desejo de mais, o desalento abandonado e só, o 14 minutos de depressão da alma, o mundo que cai em nós sem pedir licença. Sucesso e Insucesso. Humildade e coragem.


"O que diferencia os homens de carácter é a capacidade de estarem com a sua consciência- se em minoria com coragem, se em maioria com humildade. " (Sousa Franco)

Pano para mangas #0


Pano para mangas, s f, derivado do latim pannu mannica; coisas que valem mais do que são; extensões que omitimos; assuntos que pela complexidade dariam para horas de conversa; tecidos usados para colocar em casacos, camisas, camisolas; extensões para tapar os braços; frases do mundo e da vida objecto de contínua maturação interior.

In Dicionário da Língua Bloguista

Saturday, November 25, 2006

Escrita Criativa #6

Exercício: escrever com os sentidos não usando a vista.
Num parque, alguém não vê, só ouve 2 pessoas a falar.


Sorrio. No meu sorriso está este verde que me contagia, este sentido de criação, esta alma humana que fala pela natureza. Ao fundo o som da água, transparente e simples como eu, quase tão descendente como este caminho meu, que ainda agora começou.No interior, um calor. Um aconchego que me faz lembrar o meu berço civilizacional, o ponto mais divinizante da minha vida. Ando. Não sou eu que ando. Fazem-me andar embalado como o este vento que sussurra ao longe, até onde o meu ouvido chega. Junta-se o vento, um outro vento. Parece ritmado. Um toque, dois toques, mais força, mais intensidade. Água. Na minha cara. Um toque, dois toques. Um baptismo ritmado. Uma água que não tem origem. Será chuva? Está escuro. Onde está o verde? Aquele verde que me fez sentir integrado no intimo da natureza. Humana. Deixo de ver, passo a ouvir. Que oiço? "Ainda tenho tempo para parar no supermercado?", " a minha mãe diz que vai ser operada na quarta-feira", "o João não janta hoje?", "como correu a reunião?". Que vozes próximas, tão visíveis neste interior invisível a que chamam coração. O que me faz aproximar? Será o timbre? será o tom? será o diálogo tão corriqueiro e tão banal? Não vejo. Mas pre-sinto que são os meus pais. Empurrando um carrinho, num simples passeio de domingo, num Dezembro de chuva, nos meus primeiros dias de vida.

Monday, October 09, 2006

Escrita criativa #5

Exercício: Escrever com os sentidos, para além da vista. Apostar no som. Escolher um som. Escolher um género (romance, crime etc). Juntar som+estilo.

Som: barulho do elevador a subir e a descer
género: crime


É híbrido, é estranho, é comum. É rotineiro, é incomodativo, é passageiro. Roça na ferrugem de anos a fio e de um ferro gasto, usado e limado por tanta entrada e saída. Incorpora-se na vida como um som normal de electricidade ou de vento que nos passa na indiferença da agitação.
A sua vida diária, dura 80 viagens. Para cima, para baixo, sempre atrás da necessidade humana.
Naquele dia ao 79º som, eis um elemento novo. Solto, não rotineiro, vazio no som e preso no eco que deixou. Um tiro. Um criminoso usava aquele bem comum, simples e rotineiro como refém para um plano de ataque. Subir-matar-descer, como quem sobe para sar só "um beijinho à avó" ou como quem se diz de "entrada por saída". E mais um elemento. O desespero na voz do som, um grito de alma que culmina uma sinfonia de sons desnexos ligados pela causalidade. Ferrugem-roçar do ferro-tiro-berro-ferrugem-roçar do ferro-silêncio.
A morte chegou. O elevador desceu. O elevador parou. O crimonoso saiu. Nunca mais ninguém o viu. Nunca mais se usou aquele elevador.

Sunday, October 08, 2006

regresso, aDeus


(o filho pródigo, de Rembrant)



regresso, a Deus
em cada segundo que o mundo se humaniza dentro de mim,
enquanto o silêncio toma conta de tudo, do todo que sou,
e junta as peças dos momentos em que deixei de o ser.

regresso, a Deus
sempre tímido, como quem sabe que podia ser mais
mas sempre ansioso por saber que só de estar ali,
não sou um visitante.

regresso, a Deus
quando o pouco que depende de mim, o entrego, não ao deus-dará mas ao Deus que já deu.
quando o muito que depende de mim, não o faço por um sim diminuto, mas por um sim maior.

regresso, a Deus
como um desejo de não partir, mas de ficar,
mas no partir vejo a necessidade de regressar,
no fim da partida, no fim de um mais um dia.

regresso, a Deus
vacilante, apegado, desquilibrado,
regresso de Deus
confiante, livre e cristão.

regresso, a Deus
regresso, adeus,
e amanhã?

Voltarei como quem regressa esquecido do caminho,
ou regresso com Deus, com uma partida que me acompanha,
com um silêncio que me envolve e descansa
e com o desejo, de voltar...
ao fim da partida.

regresso e não quero mais adeus, mais voltas longinquas do ser.
Quero a Deus, sem adeus.
(Que não gosto de despedidas)

Tuesday, October 03, 2006

o poeta da manhã



A fala do rosto

És tu quem nos espera
nas esquinas da cidade
e ergue lampiões de aviso
mal o dia se veste
de sombra

Teu é o nome que dizemos
se o vento nos fere de temor
e o nosso olhar oscila
pela solidão
dos abismos

Por Ti é que lançamos as sementes
e esperamos o fruto das searas
que se estendem
nas colinas

Por ti a nossa face se descobre
em alegria
e os nossos olhos parecem feitos
de risos




É verdade que recolhes nossos dias
quando é outono
mas a Tua palavra
é o fio de prata
que guia as folhas
por entre o vento

(José Tolentino Mendonça)


É quase Outono. Esse tempo em que as folhas só caem, o dia é só sombra e escuridão, o tempo corre ao som das aulas e do estudo. É tempo também para Deus. Para reatar laços, para construir metas para este ano. Que o nosso Outono sejam folhas soltas á sua palavra e ao seu vento e que nos encontremos numa esquina de rua ou nas frias searas onde deixamos as nossas sementes.

Como o dia chama a noite



Sou como esta terra que tanto toca o dia como proclama a noite

sou como esta lua que na claridade do dia se sente inútil mas na escuridão ilumina pobres campos

sou como este céu azul, palco de sol e moldura de um dia que parece nunca mais acabar

serei como a noite de estrelas que esconde um dia que a qualquer hora nasce

sou a terra, a lua, o céu e as estrelas. Sou a terra de um ser que não tem dia e noite, mas que têm uma vida que demora o exacto tempo do nascer do sol até ao exacto tempo do nascer do sol.

Thursday, September 28, 2006

Escrita Criativa #4

Carta de uma palavra (burcorporália) ao Chefe do Dicionário, reivindicando o seu papel no plano linguístico português após ter sido expulso do Dicionário de Lingua Portuguesa.

Bem sei que não se faz. Usar outras palavras inocentes para argumentar o meu papel no mundo do significado e da linguística. Mas sabe, chega de jogos de palavras, trocadilhos engraçados, vírgulas de indecisão e demagogias literárias. Sabe, a liberdade de expressão não é de hoje. Já dura há um tempo. Longe vai em que havia o conjunto de elite. Palavras que eram usadas para as ocasiões e outras aprisionadas no escuro de uma gaveta ou debaixo de um lápis azul. Que eu saiba já estamos no tempo do Dicionário de Direito, tempo de coexistência, de tolerância e de paz.
Bem sei que sou dificil. Bem sei que já não sou usado como era há uns tempos. Mas veja. Olhe a familia de palavras, individuos honestos e trabalhadores, gente humilde mas com direito a permanecer no quadro linguistico português. Reconsidere. Eu por mim tentarei ser mais falado e citado, ser mais usado e referido. Burcoporália vai estar debaixo da língua de todos os portugueses em poucos anos. Dou-lhe a minha palavra.

Escrita criativa #3

Copo de água
relatos da vida de um copo


O calor tórrido do verão relembra-me os tempos do forno da Marinha Grande, berço da minha história, forma ou fôrma da minha existência, mãos da minha identidade.
Agora no frio desta feira, anseio o dia em que deixarei de ser mais um, em que o meu vidro transparente e cristalino deixa de ser peça de museu e passa a ser meio para o homem viver. Perfigurar no mundo humano. Quero viver esses dias não igualizáveis entre especies que embora da mesma fôrma se enchem de formas e identidades distintas.
Vejo-me agora num saco. Agora é mais quente e balanço num pacote de cartão. Lá fora quem me olha, distancia-se. Sou frágil. São os rótulos. São a imagem. Mas cá dentro mais forte que ferro. Lá fora alguém que me transporta. Alguém que me precisa. Alguém me raptou para um mundo novo, onde não há preço mas há uma vida, onde não perfeição mas há superação. Vejo-me a pousar agora numa prateleira onde há outras formas. Umas planas, outras altas, umas arrendondadas e outras que brilham, parece prata. De vez em quando limpo-me. E embacio-me e fico baço. Deve ser o preço da entrega, perdemos a perfeição. Deixamos de ser cristalinos. Vejo-me também a ser aliado dos homens. De manhã, ao almoço, na casa de banho, na sala em todo o lado. Dia-a-dia.
E chego hoje. A um sentido de unicidade da necessidade. Estou baço, cada vez mais frágil (talvez ainda mais do que naquele dia em que cheguei rotulado). E como nunca, apetece-me escorregar, soltar-me das maõs dos homens e cair. Como aspirina efervescente num copo de água fresca. Num chão, num tapete, numa mesa. Para que outros copos, transparentes e cristalinos possam sentir instrumentos de auxilio ao dia-a-dia dos homens. Naturezas mortas, vivas nas mãos dos homens.

Escrita Criativa #2

Envolvida
relatos de uma parede branca


Sem palavras, sem gestos, sem o minimo sentido de expressão humana, aí estava ela, a natureza morta, cumprindo a missão, o sentido de entrega no mundo, na vida, na casa. Gélida, sem o mais pálido calor do sol ou da vida dos homens que por ela passa. Insensível na sua tão grande sensibilidade de alguém que nunca foi nada.

É a entrega. O envolvimento de um ser que não é nada no mundo senão a utilidade humana e a necessidade de se enclausurar e fechar no quente de uma construção. É tudo isso que o faz ser multiplicador do nada.

Escrita Criativa #1

Aspirina efervescente

Como um salto numa piscina gélida e calma, como um tiro de arma que solta o rugido de um alvo, como flecha de um índio que ataca o mais temível dos cowboys, desço eu a caminho da minha dilatação plena, num futuro que se desmancha a cada partícula que se destrói.
Entregue total e plena na água como aspirina efervescente num copo de água de cristal.
Vida de aspirina.

Escrita Criativa #0

Let the games begin. Começou o curso de escrita criativa. Durante hora e meia, tempo para me escrever, para ouvir outras escritas, para me conhecer e conhecer quem sente á minha volta.
Hoje em diante, publicarei aqui alguns trabalhos das aulas. Forma de compilar os trabalhos e ir desenhando a curva da evolução da escrita.

Monday, September 25, 2006

Escrever a criar e criando-me a escrever


Escrita Criativa. Um curso, um passo a frente na relação com a escrita. Tratá-la por tu, saber os seus meandros, barreiras e armadilhas. Uma aposta integral em algo que aposta em mim. Um curso sobre o eu. Escrever a criar,criando-me a escrever. durante 4 meses. 1 vez por semana.






Ps: inscrevi-me no Curso de Escrita Criativa dado pelo Pedro Sina Lino (escritor e autor de vários livros) e promovido pela Companhia do Eu (http://www.companhiadoeu.com/web/). Uma maneira de desenvolver a escrita desenvolvendo o meu interior. Mais material para pensar, blogar e existir. aqui.